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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Conto de Inverno VI


Uma vez, duas, três, cinco. Espirrei cinco vezes ou mais, espirrei o suficiente para que ficasse com a cara de uma pessoa drogada. Na vida tudo tem suas consequências. Por exemplo, se você tomar um café muito quente, provavelmente queimará a língua; se você não atender ao pedido do seu cachorro pela manhã, em troca por mais cinco minutos na cama, quando acordar a sua casa provavelmente terá sido destruída por uma pequena catástrofe que late; e se você tomar um belo banho de chuva, provavelmente você ficará com um belo resfriado. Espirrei mais uma vez.
Meu cachorro me olhava com um ar de vencedor e como desejasse me dizer algo do tipo, “você é louca, ou tem desvios de personalidade”, cai em risos e lhe beijei a cabeçorra, parecia que todos diziam isso de mim. O telefone tocava, lembrando-me das minhas obrigações, olhei o calendário e vi que logo o inverno terminaria. Um sorriso desolado encobriu minha pele rija e gélida, lá fora nevava.
O sobretudo preto combinava com as lustradas botas, também pretas, e fazia um frio contraste com o cachecol roxo. Peguei a bolsa no sofá, acariciei meu cachorro e conversei com ele, como se fosse um homenzinho: “cuide da casa”, foi o que disse.
O telefone tocou outra vez, sai apressada de casa e de cara recebi o vento gelado do inverno. Sorri.Fui andando depressa para o ponto, estava muito atrasada. O ônibus chegava. Espirrei.

Gabriela Vaz

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