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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Hole for Wonderland


Foi estranho sonhar com ele. Era tão estranho e fascinante, assim como o fato dos anos terem trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas, gerando assim os anos bissextos de quatro em quatro anos.

Ele é um amigo querido, seria normal sonhar apenas com um amigo exercendo o papel de amigo. Mas ele não exercia esse papel.

Sonhei que estava em um pátio, iria encontrar um grupo de amigos que junto comigo, compunham um grupo que fazia musicais. Estava ansiosa, lógico, a música era algo que fluía em mim, não, a arte em geral flui em mim, e iria reencontrar pessoas queridas que compartilhavam um sentimento único e puro, reproduzíamos esse amor em uníssono.

Mas então aconteceu, ele vinha caminhando calmamente com a caixa de som na mão, como sempre fazia e, como sempre, eu corri para abraçá-lo. Sim era normal, eu, uma pessoa de seus um metro e sessenta centímetros correndo e gritando por um corredor para abraçar o musicista. Ele colocou a caixa no chão e abriu os braços ao mesmo tempo em que se preparava para receber o baque do meu pulo com abraço quase mortífero, e ele me abraçou, beijei-o na nuca e ele riu, até ai, tudo era como sempre foi. Ficamos nesse abraço por mais um tempo, eu dizia o quanto senti saudades dele, o quanto estava feliz em poder ver o sorriso dele novamente e sentir seu cheiro e seu abraço. Foi ai que o sonho tomou um rumo diferente da realidade, pois ele passou a me olhar com um meio sorriso no rosto, suas mãos me apertavam mais, seus lábios moviam-se lentamente sussurrando algo, ele me chamava para que eu parasse de falar, por fim, olhei-o curiosa.

- Senti também sua falta, e mais do que eu imaginava.

O mais difícil no sonho foi lembrar-se do seu rosto, céus, fazia tanto tempo que não o via que nem lembrava da sua face. Mas a voz dele era tão viva em mim quanto à sensação das suas mãos me apertando. Naquele curto espaço de tempo, deixei-me falar em um tom quase inaudível o nome dele, meus olhos involuntariamente se fecharam, esperei até sentir os lábios dele encostando-se aos meus. Não lembro mais detalhes do sonho, mas sei que a toda hora via a cena do beijo se repetir inúmeras vezes em locais diferentes, desde um jardim até o alto de um prédio em um elevador de vidro. E, aquele beijo se tornava tão real a medida que o sonhava, que pensei estar apaixonada. Sonhos são loucos, insanos e perversos. Senti de repente um calor insuportável, agora ele me olhava com outros olhos e, um sorriso enorme e macabro havia surgido em sua face, tudo ficava escuro, eu só podia ver seus olhos enormes e seu sorriso assustador. O elevador havia se tornado um buraco, mas não havia nenhum coelho para eu seguir, o que importava isso? Agora eu caia nesse escuro buraco.

“Sorrir como um gato de Cheshire...”

Nunca mais estudo sobre aquele gato miserável e a história da menina loira em um mundo macabramente maravilhoso e insano. Fechei os olhos e aproveitei o resto da queda, e enfim, acordei. Levantei e olhei para os lados, o que havia se passado? Fiquei tentando lembrar quem era aquele homem que sonhei, o qual me lembrava de como eram seus beijos, e o seu cheiro ainda me impregnava o nariz.

Demorou, mas quando me lembrei fiquei paralisada, mal podia acreditar. Mais uma vez eu sonhei com ele, meu amigo. Um alguém que eu nunca teria, um alguém que aparecia e sumia, como o Gato Cheshire.


GabrielaVaz

Um comentário:

Jardel Gomes disse...

O bicho pegou. Mas eu também já sonhei com uma morena assim. Mas ela sumia numa cortina de fumaça. Certo! Ela era viciada. Aparecia e sumia igual a lagarta maconheira do mesmo livro. Abraços!